Ilustração corporativa flat de estudante de medicina sentado em mesa com livros e tablet, cabeça apoiada na mão, ambiente calmo com plantas e lâmpada de mesa
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Falar sobre a saúde mental de quem estuda medicina ou já está vivendo a rotina médica é um tema mais urgente do que muitos imaginam. Desde o começo da graduação, percebi colegas incríveis lidando com pressão, cobrança e exaustão. No início, achei que o desgaste era parte do caminho. Mas, observando de perto, entendi que o cuidado psicológico não pode ser luxo num ambiente tão desafiador. O autocuidado é, de verdade, um critério de sobrevivência. Hoje eu considero que conversar sobre isso abertamente é o que pode transformar trajetórias e, honestamente, salvar vidas.

A situação emocional na faculdade e na atuação médica

Quando eu comecei a cursar medicina, não imaginava a intensidade da cobrança diária. Amigos próximos relatavam insônia e crises de ansiedade antes das provas práticas. Não era raro ver pessoas contando sobre episódios depressivos, ou ficando semanas inteiras sem sentir qualquer disposição para estudar. Conforme aprofundei minha vivência, percebi que esse não era um problema isolado. E não é mesmo: segundo revisão publicada na Revista Educação em Saúde, sintomas depressivos atingem de 8,2% a 52,9% dos alunos de medicina, ansiedade entre 30,8% e 66,3% e burnout de 4% a 57,5%. Números altos, que refletem a urgência do assunto.

Já para quem está na linha de frente dos plantões, seja na residência ou depois da graduação, a pressão segue intensa. Uma reportagem da CNN Brasil cita que cerca de 40% dos médicos podem desenvolver quadros psiquiátricos, como depressão, ansiedade ou síndrome de burnout. O impacto é ainda maior nas mulheres e entre profissionais de 25 a 35 anos. Vi amigos que se apaixonaram pela medicina viverem crises por não conseguirem desacelerar ou descansar de verdade.

“Não existe medicina possível sem acolher quem a pratica.”

Esses dados não são só estatísticas frias. Eles refletem vozes reais, expectativas, sonhos e frustrações que muitas vezes atravessam a formação médica. E mostram a necessidade de abordar a saúde mental de maneira proativa – e não apenas depois de um colapso.

Por que médicos e estudantes sofrem tanto?

Costumo ouvir que a formação em medicina é "um filtro natural", como se a pressão constante fosse um rito de passagem. Mas os relatos à minha volta me convenceram do contrário. Há fatores específicos nesse contexto:

  • Concorrência acirrada para entrar e se manter no curso;
  • Carga horária extensa e pouco tempo livre;
  • Exposição constante à dor, doenças e morte;
  • Autoexigência e cobrança social para alto desempenho;
  • Falta de preparo emocional para lidar com o sofrimento alheio e próprio;
  • Pouca aceitação ao pedir ajuda psicológica;
  • Mudanças bruscas na rotina e ausência de descanso verdadeiro.

Em muitos casos, o estudante é estimulado a priorizar as obrigações acadêmicas e, ao mesmo tempo, negligenciar o próprio bem-estar. Muitos adiam o sono, passam dias revisando conteúdos e, se adoecem emocionalmente, preferem ocultar os sintomas com medo de julgamentos.

No contato com residentes e médicos experientes, eu observei que boa parte deles conta histórias semelhantes: junto da satisfação profissional, vem o peso de uma rotina exaustiva, plantões longos, cobranças externas e sentimentos de solidão ou isolamento. O risco de adoecer aumenta quando não há suporte ou espaço seguro para compartilhar o sofrimento interno.

Sintomas de alerta: identificar o sofrimento antes que piore

Eu mesmo demorei para reconhecer sinais de desgaste durante o segundo ano na faculdade. Só fui perceber que precisava de auxílio quando o rendimento caiu, passei a perder o interesse por atividades que eu gostava e me afastei dos amigos sem motivo aparente. Por isso eu acredito que saber reconhecer os sinais é um passo essencial:

  • Mudança súbita nos hábitos de sono (dormir demais ou insônia frequente);
  • Irritabilidade excessiva ou explosões emocionais sem motivo claro;
  • Dificuldade de concentração e memória;
  • Sentimento prolongado de tristeza ou angústia;
  • Isolamento social e falta de interesse em atividades antes prazerosas;
  • Dores físicas sem explicação, como dores de cabeça constantes ou gastrite nervosa;
  • Pensamentos recorrentes de desistência do curso ou da profissão.

O autocuidado começa pela escuta honesta dos próprios limites e pelo reconhecimento dos sinais de esgotamento. Quem ignora esses alertas pode acabar agravando o quadro, passando de um sofrimento leve para depressão severa ou quadro ansioso incapacitante.

Estratégias práticas para cuidar da mente e da rotina

Muito se fala em cuidar do físico, mas pouco se trata de como proteger as emoções em meio à cobrança. Ao buscar fontes sérias, percebi o quanto as estratégias cotidianas fazem diferença na prevenção do adoecimento. Um artigo da Faculdade de Medicina da UFMG resume seis práticas simples, que eu comecei a adotar ao longo do curso:

  • Planejar e organizar o tempo
  • Investir em autocuidado
  • Praticar exercícios físicos
  • Valorizar relacionamentos saudáveis
  • Buscar apoio psicológico
  • Evitar automedicação

Quero detalhar um pouco de cada uma, pela minha vivência e pelo que vi trazer resultados para outras pessoas.

Planejamento e organização do tempo de estudo

Nos primeiros semestres, tentei abraçar todas as matérias, monitorias e projetos de pesquisa. A gente tem a ilusão de que quanto mais tempo dedicarmos, melhor o resultado. Descobri que um método estruturado, com revisões otimizadas, que na minha época foi o Anki, faz toda diferença no rendimento e no descanso. Ao ajustar o cronograma às minhas necessidades, eu consegui ter clareza do que era prioridade e me permiti pequenas pausas, sem culpa. Não é exagero dizer que o planejamento diminui ansiedade e melhora o desempenho acadêmico.

Outros métodos de organização praticados pelos meus colegas incluem:

  • Divisão semanal de conteúdo;
  • Uso de aplicativos de lista de tarefas;
  • Definição de tempo para estudo ativo e para lazer;
  • Estabelecimento de metas realistas, respeitando limites individuais.

Autocuidado: mais que um conceito

Percebi que descuidar do próprio bem-estar físico e psicológico se tornou regra silenciosa entre estudantes. O autocuidado, nessas horas, precisa sair da teoria e virar prática, mesmo que em pequenas ações diárias.

Reserve momentos para fazer o que gosta. Não é perder tempo – é cuidar do seu futuro profissional.

Incluo nesse pacote:

  • Pausas para refeições tranquilas;
  • Momentos dedicados ao lazer sem culpa;
  • Exercícios simples de respiração e relaxamento com frequência;
  • Poucos minutos para hobbies ou leitura fora da medicina.

A diferença na energia diária é visível. Quando cuidamos de nós mesmos, temos mais recursos para lidar com situações estressantes no cotidiano médico.

A força dos vínculos e do apoio mútuo

Sempre que compartilhei dificuldades com colegas e com a minha esposa, percebi alívio imediato, tanto emocional quanto prático. Relações saudáveis são quase um antídoto para o desgaste diário. Além disso, são nas trocas e na escuta que surgem ideias reais para superar bloqueios. Evitar se isolar e escolher abrir o coração reduz sentimentos de solidão, tão comuns no curso.

Exercício físico regular

Sempre fui resistente a acordar mais cedo ou sair à noite para ir para a academia, mas a diferença depois de me movimentar é concreta. Corpo ativo traz mente mais leve. Vários colegas citam melhoras expressivas no controle da ansiedade e qualidade do sono. Não precisa ser atleta. O importante é sair da inércia:

  • Caminhadas rápidas ao redor do campus;
  • Musculação pelo menos 3x na semana;
  • Aulas de dança semanais ou alongamentos diários;
  • Exercícios de yoga em casa, com vídeos guiados;
  • Passeios de bicicleta nos finais de semana.

São alguns exemplos de pequenas rotinas que trazem energia para suportar provas e plantões, além de afastar sintomas físicos do estresse.

Busca por apoio psicológico e evitar automedicação

Eu percebi que a maior dificuldade é quebrar o preconceito ao buscar psicoterapia ou psiquiatria. Há quem veja o cuidado mental como sinal de fragilidade. Mas eu passei a ouvir relatos de amigos que fizeram acompanhamento psicológico e, depois, me disseram que só conseguiram terminar a graduação por causa desse suporte.

Outra armadilha comum é usar remédios sem prescrição ou orientação especializada. O risco de dependência ou reações adversas é alto e, sinceramente, não resolve o problema de fundo.

Procurar profissionais qualificados faz parte da formação de quem deseja cuidar do outro e de si mesmo.

Combater o estigma: redes de apoio e políticas públicas

Algo que me incomoda, desde os primeiros dias do curso, é o estigma de que o médico ou futuro médico não pode adoecer. Esse tabu impede que colegas busquem ajuda e prolonga o sofrimento de quem já está vulnerável.

O primeiro passo para quebrar esse estigma é falar abertamente sobre sofrimento emocional entre colegas de confiança. E quando professores ou coordenadores validam essas conversas, fica ainda mais fácil buscar auxílio profissional e usar os serviços já existentes nas universidades e hospitais.

No nível sistêmico, o fortalecimento de redes de atenção psicossocial e políticas públicas voltadas para profissionais de saúde é ferramenta importante. Centros de acolhimento psicológico, ambulatórios de saúde mental nos hospitais universitários, programas institucionais e ouvidorias são exemplos de suporte real. Valorizo espaços assim por criarem oportunidades para escuta qualificada, prevenção e encaminhamento eficaz.

E claro, fazer terapia é essencial se você decide cuidar da sua saúde mental. Encontrar um bom psicólogo que te traz confiança e apoio vai mudar toda a sua vida. Eu já negligenciei muito esse aspecto e me recusei a fazer terapia, mas isso só foi um tiro no pé. A terapia foi muito importante pra minha vida pessoal, e consequentemente para a minha vida profissional.

Vida longa à prevenção: recursos e dicas para acompanhamento contínuo

Para não virar refém do esgotamento, percebi o valor da prevenção. Um acompanhamento rotineiro, mesmo quando os sintomas ainda são leves ou inexistentes, é investimento no futuro. Sugiro:

  • Agendar check-ups periódicos com psicólogos ou psiquiatras;
  • Manter um diário simples de sentimentos para perceber tendências emocionais;
  • Fazer parte de grupos de escuta, fóruns ou comunidades como a comunidade da Penseira;
  • Evitar consultas informais com colegas e sempre buscar profissionais habilitados ao menor sinal de piora.

No ambiente universitário e hospitalar, não hesite em utilizar serviços já disponíveis. Muitas universidades contam com núcleos de atenção ao estudante, ambulatórios, linhas telefônicas e grupos específicos de apoio, que eu vi ajudarem muitos colegas em diferentes fases da formação.

Dando voz à experiência: o que aprendi sobre bem-estar emocional

Às vezes, só percebi que estava no limite quando o corpo já não respondia, ou quando a alegria de aprender dava lugar ao peso. Olhando para trás, se eu pudesse resumir as lições e caminhos que sinceramente fizeram diferença, diria:

  • A troca franca com amigos, professores ou supervisores pode transformar situações críticas em projetos de superação;
  • Pedir ajuda não diminui ninguém – é um direito e um passo na direção da maturidade profissional;
  • Participar de comunidades e plataformas engajadas, ajuda não apenas no estudo, mas na caminhada conjunta;
  • Ajustar expectativas e metas, respeitando os próprios limites, torna tudo mais leve e sustentável;
  • Pausas e lazer são parte do processo formativo, não interrupções do caminho.

Livros, palestras e relatos sempre dizem o mesmo: o cuidado com a mente precisa vir antes do diploma ou do título de especialista.

Conclusão: cuidar da mente é investir no futuro

Depois de vivenciar e observar tantas jornadas marcadas por ansiedade, pressões e conquistas, reafirmo: proteger o equilíbrio emocional é o caminho para uma medicina mais humana e duradoura. Seja durante provas, plantões cansativos ou ao lidar com pacientes, tudo se torna mais leve quando o estudante ou médico olha para si sem culpa e busca as ferramentas certas.

Quem busca apoio, constrói redes e investe no autoconhecimento vai ter mais clareza e ânimo para enfrentar os altos e baixos dessa trajetória. Cuidar da mente é, sim, tarefa cotidiana. Seu sucesso e bem-estar dependem desse olhar atento para si mesmo.

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Pedro Bergo

Sobre o Autor

Pedro Bergo

Médico - PUCRS Radiologia - HCFMUSP Fundador @penseiramed

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